Ex-travesti

Ex-travesti casa na igreja
e jura amor eterno para a noiva.

Os tempos de madrinha da bateria da Aruc
fazem agora parte do passado.
Sábado de carnaval.
A noite nublada imprimia ainda mais solidão
às ruas vazias de Brasília.
Mas era carnaval, não havia como negar.

Nas tevês, Olinda, Salvador
e Rio de Janeiro pegavam fogo.
Em Brasília, a animação não chegava a banho-maria.
Aqui e ali, ouvia-se o batuque de um tamborim.
No Eixo Monumental,
a Passarela da Alegria coloria-se
à espera da tal alegria que lhe dá o nome.

Enquanto isso, numa igreja evangélica na L2 Sul,
um desconhecido Paulo Trindade, 35 anos,
casava-se com a simpática morena
Susan Soares dos Santos.
Até aí, nada de incomum,
não fosse por um detalhe:
há dois anos, Paulo era o travesti Paulinha,
madrinha da bateria
da Associação Recreativa
e Cultural Unidos do Cruzeiro (Aruc).
Depois de viver relacionamentos homossexuais por anos,
Paulo fez o que muitas pessoas duvidam
que pode ocorrer na vida de um gay:
virou heterossexual.

Apaixonou-se por uma mulher e resolveu se casar.

A cerimônia aconteceu
na Igreja Batista Central de Brasília.
Foi igual a qualquer outra.
Havia pares de daminhas e pajens,
fila de padrinhos, música romântica,
igreja ornamentada e atraso.
Muito atraso.
Marcada para as 19h30,
a cerimônia começou somente às 20h45.
Enquanto esperavam,
os convidados andavam de um lado para o outro.
Mulheres em longos vestidos, homens de terno,
meninas vestidas como princesas.
Eram, na maioria, pessoas simples.
E empolgadas com o acontecimento.

‘‘Foi uma obra de Deus’’, disse Eduardo Vidal,
60 anos, um dos padrinhos do noivo,
referindo-se à mudança na vida de Paulo.
‘‘Mas essa transformação partiu do coração dele.
Deus não invade’’,
acrescentou Nilvânia F. Chaves, 35,
amiga do ex-travesti desde os tempos
em que ele era artista performático
— e era considerado, segundo ela,
‘‘a mulher mais bonita de Sobradinho’’.
Deus — ou o Espírito Santo por ele enviado
— foi apontado por todos como responsável
pelo milagre realizado em Paulo.
O pensamento era unânime.
‘‘Ele parou, pensou em Jesus
e teve uma segunda chance.
O passado não existe mais.
Por acreditar nisso, permiti o casamento’’,
argumentou Roberto dos Santos Filho, 45,
pai da noiva.

O passado de plumas, paetês e purpurina
parece mesmo ter ficado para trás.
Não mais Gloria Gaynor.
Não mais desfiles, cabelos longos,
peitos siliconados.
Para Paulo, o brilho da vida gay
’’virou fogo fátuo‘‘.
Nem mesmo o relacionamento estável
com outro homem lhe proporcionava paz.
Paulo não se aceitava mais como Paulinha.

No dia 13 de janeiro de 2000,
ele tomou a decisão que faria sua vida
virar de ponta cabeça:
seria heterossexual.
O início da mudança coincidiu
com seu ingresso na igreja
evangélica Assembléia de Deus Ágape,
em Sobradinho.
Lá, deu testemunho de vida, chorou,
rebelou-se contra a vida que levava até então.
Os amigos torceram o nariz,
as pessoas fizeram chacota,
a mídia repercutiu.
Mas o ex-travesti não desistiu.
Hoje, atesta:
‘‘É impossível, para mim,
voltar a ser o que era antes’’.

Lua-de-mel

Nove pares de arranjos florais adornavam
o caminho até o altar.
Pisando em tapete bege,
a noiva foi recebida por um nervoso
Paulo e chorou em várias ocasiões.
O próprio noivo foi tomado pela emoção
quando Susan declarou-lhe amor eterno
por meio de uma canção.
As lágrimas rolaram
— não tanto quanto as águas que rolam
nos carnavais que já foram prioridade
na vida de Paulo, mas rolaram.

‘‘Lembre-se, Paulo:
o que Deus une, o homem não separa’’,
bradou o pastor Luiz Gustavo ao microfone,
quando os noivos, já casados, saíam da igreja.
‘‘Lembre-se, Susan:
o que Deus une, o homem não separa’’,
disse, mais uma vez.
O pastor mostrava-se confiante.
Não falou sobre o passado de Paulo,
mas frisou, em vários momentos,
as benesses da união entre homem e mulher.
A beleza do amor-até-que-a-morte-os-separe.
A pureza da monogamia.

Paulo e Susan,
ele maquiador e cebeleireiro,
ela estudante,
viajaram em lua-de-mel para o Rio de Janeiro.
Não para cair no samba
ou mesmo participar de alguma troça de rua.
Foram para uma praia reservada
e distante do burburinho.
Confiantes e dispostos a começar vida nova.
‘‘Encontrei o caminho.
Encontrei a paz.
É um renascimento’’,
disse o recém-casado.

Fonte: Notícias Cristãs

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